A hipercorreção
é um interessante fenômeno sociolinguistico que se observa quando um(a) falante
ou uma comunidade de falantes, ao tentar se aproximar de um padrão ideal
imaginário de língua “boa”, acaba “acertando demais” e se desviando tanto da sua
própria gramática intuitiva quanto da gramática normativa. Por isso é uma
hiper- (do grego hyper, correspondente ao latim
super-, isto é, “sobre; acima de; demais; para além de; excessivo”
etc.) -correção, uma correção excessiva, exagerada que acaba
resvalando, a contragosto, no erro puro e simples.
Os estudos
sociolinguísticos têm demonstrado que a hipercorreção é filha da
insegurança linguística. Pressionados pelas cobranças sociais e
culturais, sobretudo as pressões exercidas pela instituição escolar, mas não só
por ela, e desconhecendo as formas realmente codificadas na tradição normativa
de sua língua, muitos falantes acabam extrapolando certas regras e aplicando-as
indevidamente ou então abusando de certas "muletas" textuais supostamente mais
"sofisticadas".
Desse modo, reconhecendo em seus
próprios hábitos linguísticos formas que sofrem estigmatização por parte dos
mais letrados e, para reagir a essa estigmatização, se apoderando de formas
linguísticas que não pertencem à sua variedade específica, muitas pessoas passam
a empregar essas formas “importadas” com maior frequência até que os falantes
das camadas médias altas e altas. E, nesse aumento de frequência de uso, aplicam
a regra recém-adquirida em contextos onde ela não se aplicaria, nem segundo a
gramática normativa nem segundo a gramática da variedade de maior
prestígio.
Um primeiro princípio parece
governar essa extrapolação dos usos:
É esse princípio que temos visto
em ação nos principais casos de hipercorreção que tenho discutido aqui nas
últimas semanas, principalmente na produção de textos escritos mais monitorados.
Esse princípio age, portanto, de forma ainda mais intensa na relação imaginária
entre língua falada e língua escrita, em que a escrita é tomada
como um universo homogêneo, sempre sinônima de maior monitoramento, de maior
“sofisticação”, numa clara mitificação da escrita que não tem nada a contribuir
para uma boa educação linguística.
Convém alertar também que essas
formas hipercorretas são empregadas não só pelos falantes de camadas médias
baixas ou com letramento insuficiente e escasso domínio dos gêneros escritos
mais monitorados: as pessoas mais letradas também optam com muita frequência
pelas formas mais distantes do português brasileiro mais geral e usam
obsessivamente aquelas formas menos espontâneas, mais conservadoras. Um bom
exemplo é a alta frequência de emprego dos demonstrativos
este/esta/estes/estas, quando não seu uso exclusivo (embora já
saibamos que esses demonstrativos estão praticamente extintos da gramática
intuitiva do falante brasileiro), de mesóclises e do pretérito mais-que-perfeito
composto com o auxiliar haver (“O Brasil havia
participado das negociações”) em lugar do velho, bom e saudável
ter. Trata-se do fenômeno de “preservação da imagem”, que
consiste em evitar atrair para si o estigma da sociedade.
Assim, podemos também enunciar
um 2o princípio da hipercorreção, presente na atividade linguística de falantes
mais letrados (incluindo os linguistas que defendem o português brasileiro, mas
enunciam essa defesa muitas vezes numa norma-padrão anacrônica, lisboeta do
século XIX...):

*PB:
português brasileiro
Em nosso trabalho de educação
linguística, devemos conscientizar os nossos aprendizes de que é preciso
abandonar a secular superstição de que escrever é sempre sinômino de “escrever
difícil” — a escrita é tão heterogênea quanto a fala, apresenta variação e se
realiza em gêneros discursivos que têm suas próprias convenções, sua própria
“linguagem”, por assim dizer.
É perfeitamente possível
escrever um texto, mesmo de gênero que exija maior monitoramento estilísitco,
usando palavras simples, construções sintáticas habituais, formas já
perfeitamente incorporadas ao falar urbano de prestígio etc. Uma escrita
elegante e agradável de ler não precisa de jeito nenhum ser hermética, rococó e
empolada.
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