domingo, 7 de outubro de 2012

Balanços...


                                                                     
BALANÇOS....

«Contei meus anos
e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas
percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

*Já não tenho tempo para lidar com mediocridades*.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com *invejosos tentando destruir quem eles admiram*,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para *discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias*
que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para *administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos*.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, *quero viver ao lado de gente humana*,
muito humana; *que sabe rir de seus tropeços*,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
*não foge de sua mortalidade*.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial (...)»
*
Mário de Andrade*
                       

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